A armadilha do produto de graça

Dia desses O Boticário fez uma promoção e deu (aham, de graça) uma bisnaguinha de 100 ml de hidratante corporal para as clientes que se cadastrassem no site e participassem da promoção. Essa tática é recorrente do grupo O Boticário – a Quem disse, Berenice? dá um batom novo na troca de um velho e a The Beauty Box também já lançou mão do hidratante de graça.

Ao buscar meu creminho gratuito (não resisti e participei; sou a louca dos brindes), esperei para a moça confirmar meus dados dando aquela olhadinha inocente e despretensiosa pela loja. Resultado: saí de lá com um batom! Um batom líquido cujo preço era muito maior do que eu estaria normalmente disposta a pagar (no fim indiquei ele nesse texto aqui). Mas entrar na loja e levar o produto de graça me deu uma sensação estranha. Eu senti como se devesse levar algo, parecia errado ganhar e não dar nada em troca. Você pode achar que eu estava fora de mim, mas juro que foi essa a sensação que eu tive. Eu estava em dívida com a marca, e por isso achei justo levar mais um produto.

Normalmente eu nem entro em uma loja d’O Boticário, muito menos fico olhando os produtos que eles têm. Mas ao me prometer um produto, eles me fizeram entrar lá, olhar o portfólio inteiro e ainda levar mais um item pra casa. Ou seja, foi uma bela ação de mkt e de manipulação de decisões. E que funciona. (Ao menos comigo, já aconteceu com você?)

creme

Brindes, brindes everywhere…

Dar produtos de graça, brincar com nossos sentidos (deixar a loja com um cheirinho particular, como a Farm faz, por exemplo) são algumas entre tantas formas que as empresas têm para nos fazer comprar mais. Eu me deixei levar, mas é importante estarmos conscientes disso para não cairmos nessa pegadinha toda vez. “A gratuidade é uma forma de produzir consumidores”, diz Raj Patel.

O grátis pode ser uma forma de nos recrutar para um tipo de comportamento que não teríamos, caso fôssemos confrontados com os custos integrais antes de decidir não pagar nada. A gratuidade é ainda mais sedutora quando nossos orçamentos são apertados, e é por isso que o “gratuito” também acaba com a fantasia de que somos agentes econômicos racionais e nos convoca para o papel de consumidores.

PATEL, Raj. O valor de nada: por que tudo custa mais caro do que pensamos. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p. 62-63.

Entender que o consumo não é um processo puramente racional é o primeiro passo para entendê-lo e realmente ponderar nossas ações.

Também é importante lembrarmos que mesmo os produtos “de graça” têm suas externalidades (como expliquei aqui) e seus custos.  E alguém (não nós, ao menos diretamente) está pagando por eles. Assim, acho que aquelas perguntinhas básicas que permeiam nossas aquisições (Preciso mesmo? Esse é o momento de comprar? Já não tenho algo parecido em casa? Por que estou adquirindo esse produto?) deva ser aplicado sempre, a qualquer produto que você simbolicamente retire da prateleira, pagando por ele ou não. E se eu não precisava do batom, imagina do hidratante…

[Esse texto não tem o objetivo de fazer com que você se isole do mundo e comece a plantar sua comida, costurar suas roupas e a viver no mato. É simplesmente um convite para refletirmos sobre nossa relação com o mundo por meio do consumo. No fim, é sempre um exercício para olharmos para nós mesmos.]

  •  Este post faz parte da série sobre consumo do Vivendo à vista!
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