A gente não contesta o que não vê

Semana passada eu falei sobre uma saída muito malsucedida com um rapaz quando eu era mais nova.

O ponto do texto era que, ainda que o encontro tenha sido muito ruim, eu não consegui enxergar que o problema estava no rapaz, eu puxei isso pra mim. Eu imaginei que EU DEVIA TER ALGUM PROBLEMA para “atrair” aquele tipo de pessoa, cheguei a questionar se algumas das coisas que ele falou eram verdade. Enfim, o lance é: EU ME QUESTIONEI. Mas não fiz o eu era mais óbvio – e correto: QUESTIONAR O CARA.

Devemos chamar as coisas pelo que elas são: assédio, relacionamento abusivo, machismo, e por aí vai. Mas pra que a gente consiga chegar nisso, a gente tem que, primeiro, enxergar que está vivendo isso (e entender que, basicamente, o problema está no outro e não na gente). E ironicamente essa me parece uma das coisas mais difíceis para quem vive esse tipo de situação.

Quantas vezes você já não ouviu uma história horrorosa de uma amiga sua e seu “sentido aranha” disparou na hora gritando que era “Cilada, Bino”, e sua amiga: “NÃÃÃÃÃÃÃÃO, magina, ele só estava ______________ (cansado/irritado/frustrado/com problemas/sem tempo de entender a situação/ agindo certo, a errada fui eu), mas no geral ele é ótimo, um amor mesmo, vai ver até eu que falei alguma coisa inconveniente…”.

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Oh hell NO!

Por que aceitamos essas agressões transvestidas de “amor”, de “carinho”? Por que justificamos esses comportamentos equivocados, que nos colocam pra baixo ou que fisicamente nos machucam? Por que não queremos ver? Pior, achamos que merecemos menos, que a culpa é nossa. O machismo está entranhado na gente também.

Por isso, eu repito, antes de querer combater essas coisas, é preciso identificá-las, reconhecê-las. E isso em qualquer situação, em qualquer lugar.

  • Não tá tudo bem o cara na balada te forçar a beijá-lo.
  • Não tá tudo bem o cara no ônibus passar a mão em você.
  • Não tá tudo bem você deixar aquele cara no seu trabalho fazer aquela piadinha idiota e machista que contamina o ambiente.
  • Não tá tudo bem quando seu parceiro grita com você, te xinga ou diminui suas decisões e vontades.
  • Não tá tudo bem se ele questiona tudo que você diz e faz questão de dizer que você é burra/está errada/ está exagerando ou “alucinando” toda hora.
  • Não tá tudo bem quando o cara faz chantagem emocional pra te manter no relacionamento.
  • Não tá tudo bem ser tratada mal. NUNCA. Por ninguém.

E em seguida, temos que parar de achar que essas situações são culpa nossa. Por que não são. Juro pra você que não são. E é reconhecendo isso, e assumindo que essas coisas acontecem ao nosso redor – com a gente mesmo, ou com pessoas próximas, que perpetuam ou sofrem com equívocos, julgamentos equivocados ou atos de violência e agressão – que nós temos uma chance real de finalmente lutar contra isso.

“Não sou eu. É você. E isso tem que parar.”

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