Em construção

Quando eu tinha meus 20 e poucos anos, a referência que eu tinha de mulher – e consequentemente, de guarda-roupa – era a minha mãe. Mas minha mãe não é uma mulher simples ou discreta no vestir. Ela gosta de brilho, de paetê, de salto alto e peças reluzentes e douradas. Se ela pudesse ter só roupas da Joulik no guarda-roupa ela teria, sabe como? Ela deve ter sido sheik em outra encarnação.

Sem pensar muito, ao sair da faculdade, aos poucos eu fui incorporando esse estilo. Saía de casa sempre de salto alto; à noite, nunca faltava brilho. Eu era uma cópia malfeita de outra pessoa. Não pensei se gostava de me vestir assim, só achava que era o que eu devia seguir.

Com o tempo, porém, eu fui trocando as baladas pelos barzinhos, e o meu vestir começou a parecer inadequado. Várias vezes me sentia desconfortável com as roupas que usava, parecia que eu me destacava, mas pela razão errada. O sapato alto era sempre um incômodo, a roupa apertava, o vestido era sempre o errado.

Comecei a pensar se eu não podia, aos poucos, abrir mão daquilo, daquela fantasia. Se aquelas roupas não me representavam e não falavam sobre quem eu era e queria ser, que peças falariam?

Fiz então algo que até aquele momento parecia impensável: busquei novas referências. (Às vezes o óbvio é o mais difícil de se fazer.) Pra mim, uma das graças desse processo foi descobrir que eu podia me reinventar – bitch, I’m Madonna! –, eu podia buscar o que funcionava para mim, podia experimentar, enfim, podia criar o que eu quisesse, make myself, e não apenas reproduzir um modelo que eu tinha.

Acho que o meu interesse por roupas e pela relação que elas têm com nosso corpo e nossa imagem partiu muito daí. Havia uma necessidade real de me redefinir, de me descobrir enquanto mulher adulta, sem afetação. Às vezes é difícil percebermos quando vivemos não como queremos, mas como achamos que devemos. Precisamos nos libertar disso.

E foi assim que eu passei por uma mudança grande no meu guarda-roupa. As roupas ultrafemininas, cheias de flores, estampas e babados diminuíram, assim como as peças muito delicadas e com jeito de menininha. Entraram as saias mais justas, as brincadeiras com proporções, as peças mais sóbrias, os bodies, outros tecidos, outras texturas. Vestir-me passou a ser uma brincadeira, uma exploração, um experimento. Como eu me sinto com tal peça? Como meu corpo fica com tal roupa? Que postura eu assumo, que imagem eu retrato? Foi um processo bastante íntimo, que me fez rever minha relação com o corpo e me aceitar mais. Também me fez mais confiante, mais segura. Eu sabia como eu parecia aos olhos dos outros, mas mais importante, eu sabia como eu parecia aos meus próprios olhos, e eu finalmente me reconhecia e me gostava.

E olha, essa coisa de a gente se aceitar, de poder afirmar que se gosta, que se curte, que está feliz consigo é tão difícil! Uma parte porque dá vergonha, não soa uma postura muito correta no fim das contas – parece que a gente tem que ser tímida e inconsciente de si mesma, sem se elogiar muito. É aquela ideia cretina entoada pelo One Direction “(“You don’t know you’re beautiful / That’s what makes you beautiful”).

Que porcaria de ideia é essa? “Sou bonita, mas não posso saber e não posso afirmar isso também”…  ¬¬

Acho que já deu dessa palhaçada, certo?

A gente sabe quem é por meios, análises, caminhos e recursos muito diferentes. Eles não te dão a resposta definitiva, mas te ajudam a se aproximar de si mesma. Comigo, esse processo passou pelo meu armário, e foi fundamental. Por isso não menospreze o guarda-roupa que você tem. Ele é uma baita ferramenta. Cheio de dúvidas, oportunidades e respostas. Explore-o. Explore a si mesma.

 

[As fotos foram tiradas na sexta-feira, dia 23/03, pelas queridas e maravilhosas Monique Mika e Jujubeeets!]

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