Esse cabelo

 

Acordo desde sempre com uma juba revolta, tantas vezes a antítese do meu caminho, e tão longe dos aconselhados lenços para cobrir o cabelo ao dormir. Dizer que acordo de juba por desmazelo é já dizer que acordo todos os dias com um mínimo de vergonha ou um motivo para me rir de mim mesma ao espelho […]

 

A primeira vez que alisei meus cabelos foi para minha festa de 15 anos. Uns dias antes, participei da festa de 15 anos de uma amiga querida, que tinha marcado salão para que todas as meninas fossem arrumadas juntas (eu era do ‘bolo vivo’, na minha época tinha isso). A moça tinha um babyliss na mão (eu então desconhecia o que era) e não escondeu o desconforto em mexer no meu cabelo, cacheadíssimo. Ela me olhou e retrucou: “Nossa, mas ele enrola sozinho, né”. “É por isso que é cacheado”, retruquei. Não entendia subtextos.

Na foto da festa da minha amiga, meu cabelo está tão armado que ele tampa parte do rosto da menina que estava atrás de mim.

Quando alisei o cabelo pra minha festa, senti ele muito macio. Muito brilhante. As curvas não são boas pra refletir a luz. O brilho. Mas um dos momentos que mais lembro da minha festa de 15 anos é o dia seguinte. Estava na casa da minha tia, que tinha piscina. Eu sou desesperada por piscina. E sem saber, estava desesperada pelo meu cabelo também. Minha alegria foi mergulhar a cabeça na piscina e senti-lo enrolando ali, na hora.

 

Posso até aprender a pentear-me, não posso porém fazê-lo na pele de outra pessoa.

 

Todos os momentos em que eu tinha que estar “arrumada” eu alisei o cabelo. Em festas. Formaturas. Puxa. Alisa. Alisa. Alisa. A umidade é um temor real.

Quando eu participei de um programa de extensão em um canal de televisão (sou formada em jornalismo, e achava que rolava dar uma chance pra esse lance de tv) a minha preocupação maior era o cabelo. Praticamente todas as mulheres tinham o cabelo liso. Desenvolvi um truque, porque não há cabelo que aguente chapinha diária – e eu não tenho o menor talento pra isso. Após lavar, eu escovava o cabelo o máximo possível e prendia. E na hora em que eu devia gravar minhas passagens (as falas em que o repórter aparece no meio de uma reportagem), eu soltava o cabelo e dava mais uma escovada. Assim não dava tempo de ele enrolar.

Uma vez arrisquei prender meu cabelo. Fomos gravar uma matéria num pátio da polícia. Ventava muito, mas eu estava nervosa, não prestei atenção quando parte do cabelo soltou e ficou sacudindo na lateral da minha cabeça. Quando vimos a gravação, perguntaram porque parecia que tinha um bicho me atacando.

 

Em dois mil e onze, com indisfarçável desgosto, cortei o cabelo para me esquecer dele ainda mais. É claro que expliquei a mim mesma o esquecimento como simples sentido prático: lavar e andar, etc.

 

Cabelo não é só cabelo, ao mesmo tempo em que é. Sempre fui muito desprendida com ele – corto mil vezes, sem dó. O que eu mais gostei foi o corte Joãozinho (que o guardador de carros que trabalhava perto da minha casa fez questão de falar que foi um erro, mesmo sem eu ter perguntado).

Mas teve um momento em que eu cansei. Cedi. Já passava dos 20 anos e ainda não sabia o que fazer com ele.

Fui em um salão e falei que queria mudar. Não sou mesmo boa com subtextos. O que eu devia ter dito é: “Você pode me ensinar a cuidar do meu cabelo?”. Como não foi isso que eu disse, a resposta que obtive foi “ou fica loira ou alisa”. Alisei. Com formol. Mais de três horas pra fazer o estrago.

Eu amei.

Dois meses depois voltei ao salão para retocar a raiz. O cabelo quebrou todo em cima, eu parecia o Xororó. Só queria chorar.

Levei isso por dois anos. Achava que ter cabelo liso é “mais fácil”. Sabe pra quem realmente deve ser mais fácil? Pra quem já tem cabelo liso (e isso ainda me parece bastante debatível). No meu caso, precisava de constantes idas ao salão pra manutenção, e tinha que esconder a raiz pq “ai meu deus alguém perceber duas texturas nesse cabelo” e a coisa meio que se tornou um inferno.

Sabe o que é mais fácil? Ser você mesma. Nem sempre parece, mas é.

Uma amiga maravilhosa (um bjo, Crix!) um dia olhou pra minha cara e falou o que eu não tinha coragem de verbalizar: “Você até que é bonitinha, mas parece que tem algo faltando”. Tinha. E eu começava a sentir falta. Do meu cabelo. De mim.

 

Não posso é esquecer-me deste cabelo sem me esquecer também de mim e seguir à minha frente deixando-me para trás como duas pessoas que se perdem numa feira, admiti para comigo mais tarde. Na sequência deste último corte começaria a vontade de saber a sua história.

 

No fim, o alisamento foi a melhor coisa que fiz na vida. Pq foi preciso esse aniquilamento, essa distância, para uma aproximação verdadeira, desejada e honesta. Quando eu cortei a química do cabelo (e ele deu uma enrolada na hora, sério, esse cabelo tem muita personalidade) eu segurei o choro.

Eu estava de volta.

Aos poucos. Mas estava.

Cabelo não é só cabelo.

Cabelo é social. Cabelo é político. É público e é íntimo.

Cabelo é sobre ser você.

 

 

O cabelo aguardaria por mim no princípio do caminho.

 

  *   *   *

 

Esse texto foi inspirado na leitura do maravilhoso Esse cabelo, livro de autoria da angolana Djaimilia Pereira de Almeida (LeYa, 2017). As citações (destacadas) são todas retiradas deste livro, respectivamente, p. 13; 50, 81 (duas citações) e 118.

A ilustra que abre o texto é de Karen Hofstetter e faz parte do livro Dia de Beauté, da Vic Ceridono (Paralela, 2015, p. 79).

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