#gIRLbOSS

Tem um filme da Sarah Jessica Parker chamado Não sei como ela consegue (que é uma porcaria, já aviso) que mostra as dificuldades de uma mulher de sucesso: conciliar carreira, filhos, marido e vida pessoal. Se eu me lembro bem, ela ainda tem que lidar com um cara que está a fim dela (mesmo ela sendo casada) por que, né, ela ainda é super estilosa e gata.

E esse é o dilema da mulher bem-sucedida. Aliás, isso é ser bem-sucedida: trabalhar, mas sem abrir mão dos papéis de esposa e mãe. Não precisa escolher, ela tem que fazer tudo – e se virar com a culpa e as falhas que isso acarreta.

Dentro desse pacote, ela precisa ser uma funcionária competente e se mostrar confiável (porque, né, dois filhos, vai que um fica doente, não pode), uma mãe que coloca os filhos pra dormir, uma esposa com disposição para o marido, e que ainda arranja tempo pra ir na academia e cuidar da alimentação.

Não sei que mulher é essa.

* * *

Em abril, estreou no Netflix Girlboss, seriado levemente baseado no livro de mesmo nome, escrito pela Sophia Amoruso. Pra quem não sabe, Sophia é a criadora da Nasty Gal, uma loja on-line de roupas que chegou a faturar $100 milhões de dólares em um ano e que conta com 350 funcionários. Fiquei empolgada para ver a tradução dessa história para as telas (do pc).

E gostei muito do produto final. Muito mesmo. Amei o fato de que, diferente de tantos exemplos que vemos por aí, Sophia não é uma empreendedora que “desde pequena mostrava tino para os negócios” ou que “tinha no empreendedorismo sua vocação”. A mulher é uma ferrada sem perspectiva que descobre uma forma de ganhar dinheiro com um talento que tem. Como uma pessoa que também abriu uma empresa (em escala infinitamente menor) por conta própria sem ter sonhado com isso desde tenra idade, achei incrível. Achei um frescor.

E até certo ponto, achei a postura de Sophia no seriado muito real. Ela é péssima. Ela rouba, mente, ignora as pessoas, é egocêntrica, mesquinha, ingrata. Eu achei maravilhoso ver uma mulher que não é endeusada, que não é “o exemplo”, “o modelo” do que devemos ser. Achei libertador. Achei real.

Até que comecei a ler vários textos sobre o seriado. Uma galera odiou (veja aqui e aqui, por exemplo).

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That’s brand new info!

 

A alegação é a de que Amoruso não é “um exemplo” e de que não devemos tratar as pessoas do jeito que ela trata. Mais, não dá pra começar um negócio com tanta falta de escrúpulos. Não dá pra ser tão cega ao próprios privilégios. E “a empresa (a Nasty Gal) agora está em processo de falência, então, que autoridade ela tem pra falar sobre negócios, não é mesmo?”.

¬¬

Em que mundo essas pessoas viveeeeeeem?

Por que até onde eu sei, Steve Jobs era uma baita de um babaca, que chegou a ser demitido da própria empresa que tinha fundado e era uma figura insuportável de se lidar. MAS, e com homens sempre tem um mas, quando contamos a história dele isso é minimizado porque o cara “era um gênio”. Era criativo. Mudou a forma como as pessoas se comportam. Uau.

Até onde sei, Amâncio Ortega, o fundador da Zara, construiu seu império copiando as roupas das maisons e de renomados estilistas e vendendo-as a preços módicos, em larga escala, sempre apelando para a renovação constante das peças ofertadas. A Zara é uma das marcas mais associadas a trabalho escravo e produção degradante na área têxtil. Não vejo ninguém xingando esse cara e falando que a história dele “não é um exemplo”. Ao contrário, tem um livro contando as sacadas maravilhosas dele. O título? “O gênio da Zara”.

Então, em primeiro lugar, achar que toda empresa nasce de forma muito idônea e que não tá preocupada com outra coisa que seja lucro é ingenuidade ou burrice. Achar que todo mundo “é legal” e tá preocupado com o meio ambiente enquanto elabora sua linha produtiva é ilusão (o número está aumentando? Está. Mas infelizmente ética não parece estar no cardápio de todo mundo). Tem um monte de marcas inescrupulosas por aí – e você tá desesperado jogando dinheiro no colo delas (eu, você, todo mundo). Tratar esse comportamento como se fosse algo exclusivo da Amoruso me faz levantar a sobrancelha.

Mas o que mais me espanta é o julgamento para cima de Amoruso. Por que o ranço que eu senti das críticas que li não foi apenas uma revolta por ela tratar as pessoas tão mal. Foi mais. O que senti foi que ela, enquanto mulher, NÃO PODIA agir da forma como agiu. Veja, eu dei apenas dois exemplos ali em cima de homens que também podem ser criticados pela forma como levaram seus negócios. Mas o resultado deles supera as críticas. Por que, no fim, são homens. Isso é esperado deles. Eles podem ser babacas. Eles têm passe livre. Eles podem explorar os outros que “tudo bem”. São competitivos. Seus fracassos são lições. “Connect the dots.” Ninguém espera que eles equilibrem seus impérios com a vida doméstica e a paternidade. Eles precisam ter gana. E ponto para eles.

Já Amoruso não agiu como se espera de uma mulher. Eu sei, ela faz coisas erradas no seriado, como roubar. E não apoio tais atitudes. Mas tem várias outras coisas que ela faz que só me mostram que ela é um ser humano. Ela sente raiva, se frustra, tenta de novo, erra, leva na cabeça. Ela não tá preocupada em parecer nada pra ninguém, ela não quer conciliar nada. Ela quer dar certo. Ela luta muito pelo negócio dela, não se intimida.

Como disse minha amiga maravilhosa Monet:

A personagem [de Girlboss] é babaca? É! Ela diz disso na primeira oportunidade que temos de ver o quão ela é babaca. Ela assume ser a babaca que é. E ela se ferra muito sendo babaca narcisista. […] O antagonista de Girlboss é ela mesma, a sua babaquice, é contra ela que ela luta, o tempo todo, e isso é sensacional!

Sinto que o seriado levou algumas bofetadas porque não foi na fórmula usual, da mulher que mostra por meio de um bom comportamento, docilidade, submissão e muita paciência, aliado a um trabalho impecável (e muito melhor do que seu colega masculino, porque sempre temos que compensar) que se “chega lá”, sem abrir mão das outras funções “femininas”. Você tem que ser pisada com um sorriso no rosto, porque eventualmente “sua hora chega”.

Amoruso não faz nada disso. E ainda que ela seja uma “millennial” infantil e ingrata e o seriado tenha defeitos (eu vi tudo rápido pq tava muito interessada, vi muita gente falar que não passou do segundo episódio e eu também entendo, não é a coisa mais cativante do mundo), temos que repensar nossa postura e nossas críticas a Amoruso – afinal, por que também não podemos aprender com ela e buscar um pouco da postura confiante que ela tem?

Ou, no mínimo, precisamos rever o enaltecimento dirigido aos homens que agem como ela.

Nota: me questionei muito sobre meu posicionamento em relação ao seriado. O Guardian escreveu: “If you watch Girlboss and love it, I want you to get help” e não para de descer a lenha na produção da Netflix. Será que eu preciso de ajuda? O_o

 

O que vocês acharam do seriado?

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Comentários (2)

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