Moda com propósito [impressões]

Foi com muita empolgação que eu comecei a leitura de Moda com propósito: manifesto pela grande virada, de André Carvalhal. O autor trabalhou por 10 anos na FARM e agora lança uma nova empreitada, a MALHA, mais conectada com seu momento de vida, pautado pelo repensar da moda.

Começando pelo fim para chegar ao começo

O livro é dividido em cinco partes e a primeira delas trata justamente do fim. Do fim da moda.

Ao menos o fim como a conhecemos, como a produzimos, como a comercializamos. O autor nos mostra como esta indústria esgota os recursos naturais para uma produção em massa que não faz sentido, pois estimula o consumo desenfreado, insustentável e que não cumpre com a promessa de felicidade em que tal proposta é embalada.

Ainda que seja a segunda indústria que mais emprega no mundo, é também a segunda que mais polui, perdendo apenas para o petróleo. O livro é cheio de dados e informações que reiteram como a produção de roupas na escala que assumimos hoje é prejudicial e impossível de ser mantida a longo prazo. O autor clama por uma mudança.

Uma mudança, em primeiro lugar, das marcas. Que elas não vendam apenas roupas, mas que encontrem um sentido no que fazem, que tenham um porque que as oriente e direcione; enfim, um propósito.

 

Marcas com propósito só poderão ser construídas por pessoas com propósito de vida. Então se existe um novo sentido a ser buscado resgatado, ele está dentro de nós. (p. 105)

 

O tom do livro às vezes beira o esotérico. Carvalhal defende que são pessoas motivadas e movidas pelo sentimento de mudança e pela busca pelo novo que farão a reformulação que a moda precisa. Ele explica esse momento de transição que vivemos como uma mudança na era astrológica, passando da era de peixes para a de aquário. Enfim.

Nos capítulos seguintes, Carvalhal destrincha então a ideia de propósito, explicando a importância dessa visão para conectar as marcas com seu público. Ele permeia a leitura com exemplos de diversas marcas que têm um propósito claro e que buscam não só o lucro, mas também ganho coletivo e social. FARM, como não poderia deixar de ser, Osklen e C&A são citadas de maneira recorrente.

Ele também apresenta opções para a produção alternativa de peças, como o upcycling e a reciclagem de matérias-primas como madeira; assim como o uso de novos tecidos, oriundos da soja e de outras fontes; e novas formas de trabalho e de relação com o capital, como economia colaborativa e circular, co-sewing, coworking, brechós e trocas de produtos, entre outros.

Seja a mudança

O final do livro também assume um tom mais intimista e individual. Carvalhal fala sobre a conscientização de cada um em relação ao consumo e à criação de vida com sentido, que vá além do material.

A mudança na moda se dá, na verdade, a partir de uma mudança nos indivíduos; na busca por uma relação nova com o meio ambiente e o que nos cerca, afinal

[…] você pode criar sua realidade. Ser quem você é. Todos os dias, de todas as formas. Com todas as suas qualidades e defeitos. Sem olhar tanto ao redor. E você nem precisa ir muito longe para isso […] A viagem é para dentro de você. (p. 393)

Um porém

Moda com propósito é um livro bastante interessante. O autor traz diversos insights e informações muito atuais sobre esse universo. Ele também fala bastante sobre as experiências dele com a FARM, inclusive sobre temas espinhosos, como apropriação cultural.

O livro é basicamente voltado para pessoas que trabalham com moda e com marca, obviamente. Talvez por isso eu senti o discurso um pouco fechado, distante da realidade da maioria das pessoas. Eu, como consumidora e pessoa interessada em moda, senti por vezes falta de alternativas e caminhos sobre como proceder. O jeans é o item do vestuário que mais gasta água para ser feito (15 mil litros para uma peça). O jeito é nunca mais comprar jeans? Só buscar peças prontas em brechós? Tentar o upclying?

O que quero dizer é que esse discurso – do faça você mesmo, mude a relação com a roupa e com o consumo – sempre me parece descolado da realidade de muita gente que não pode se dar ao luxo de comprar uma peça de roupa produzida por uma marca de slow fashion porque não tem R$400 pra gastar em uma calça. Ou que só tem a Renner como opção de compra – ou que, na verdade, quer comprar na Renner, porque o intuito da pessoa não é se destacar, mas sim se misturar, pertencer, ser igual aos outros, construir essa identidade por meio do grupo e do coletivo.

A crítica que eu faço aqui é pra mim também, não é só pro livro não. Tava falando com a minha irmã esses dias sobre roupas e comentei que ela poderia investir R$100 por mês em peças novas pra compor um guarda-roupa próprio, e não apenas formado, em sua maioria, por peças que eu ou minha mãe demos pra ela. Ela me acusou de ir contra o consumo consciente porque falei pra ela comprar. E ela ainda me disse que os R$100 fariam falta, ela não se preocupava com a forma como se vestia porque outras questões mais urgentes vinham antes pra ela.

Quando falei pra comprar roupas, não quis dizer que ela tem que comprar roupa nova na fast fashion. Ela poderia ir a um brechó, buscar um produtor local, como na Casa 102, aqui em Curitiba, buscar marcas alternativas, enfim, há opções… Mas entendo o que ela quer dizer.

Também não acho que a ideia seja parar de consumir de todo. Acho bem difícil, até porque nós queremos novidade, nosso estilo muda, nosso corpo também, e é preciso estar atento a isso.

Mas tem esse ponto: roupa pra ela não está em primeiro plano. Assim como não está para muita gente. Mesmo. Assim como não está em primeiro plano saber a origem da roupa que se compra, a condição de trabalho dos funcionários nas confecções, o impacto ambiental que a roupa provoca.

Não acho que o objetivo do livro foi trazer respostas prontas, mas sim provocar a reflexão, um chacoalhão mesmo. Eu entendo isso. Mas enquanto esse discurso de mudança da moda se mostrar restrito e sem alternativas que, de fato, atendam uma fatia mais abrangente da população, o que teremos são pessoas da moda falando para pessoas da moda. E não simplesmente para pessoas.

[obs.: vale dizer que Moda com propósito também peca pelo fato de não ter uma lista de referências ou bibliografia ao final do livro. Os docs. que o autor indica e cita, assim como livros e outras obras, ficam todos perdidos no meio do texto e eu não tenho onde consultar esses títulos depois. Entendo que é pra fazer um livro mais descontraído, mas meu deus, como isso me pegou – talvez por eu trabalhar com edição e revisão, não sei se outros leitores sentiram isso. Mas se você gostou de alguma indicação, anote-a na hora. ;D]

[obs. 2: as imagens do post são do livro e das citações que abrem os capítulos.]

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