Mulher Maravilha

[Este post contém spoilers do filme.]

 

Eu sei, todo mundo está em um caso de amor com o filme da Mulher Maravilha. Eu também estava – antes de assistir ao filme. Hehe.

Não quero ser estraga-prazeres ou a “do contra”, mas quando sai um produto com a bilheteria e o alcance que um filme como esse tem, é preciso que a gente dê um passo atrás e reflita um pouco.

Saí da sala do cinema com a impressão de que este era mais um filme de super-herói, só que com uma mulher como protagonista no pôster. Quero dizer com isso que, embora pareça, o filme não nos dá nada de diferente, não nos dá uma protagonista empoderada (ser empoderada não é só sair por aí batendo na cara dos outros, ainda que você use um escudo e um chicote muito legal fazendo isso).

Antes de continuar, acho importante deixar claro que, doravante, Chris Pine (o Steve Trevor no filme) será chamado de Namorada, porque o papel dele seria o de coadjuvante na obra. Vejamos se isso ocorre.

 

Diana está lá na terra dela, de boinha. É uma moça sem objetivos – digo, ela quer lutar, mas pq? Não sabemos.

Daí chega um cara na terra da Diana, Namorada. Namorada tem um propósito: ele quer impedir os alemães de ganharem A Guerra que Acabaria com Todas as Guerras (parece que o plano não deu mto certo after all, mas ok). Diana fala “que legal, vou junto”. E assim ela parte em uma missão que, na verdade, é dele. A “missão” da nossa suposta protagonista – para ajudar na missão de Namorada, na verdade – é matar o deus da guerra, por que só assim ela acabaria com todos os conflitos entre os homens de uma vez por todas.

Certo.

Daí ela chega em Londres, no começo do século XX, e como falou o Gui, o filme vira um Crocodilo Dundee, com as situações engraçadinhas derivadas do caipira/deslocado na cidade grande.

E gente, o filme incomoda muito a partir daí. Diana passa o tempo todo seguindo Namorada pra cima e pra baixo. Namorada quer arranjar uma roupa mais adequada para Diana usar, não porque ela tem que se disfarçar de mundana e esconder as armas que ela leva consigo. Ele deixa bem claro que ela é muito bonita e isso é “uma distração”, basicamente ela tem que ficar mais feia. E ele repete isso em outro momento do filme, falando que ela não poderia ir com ele enfrentar os alemães porque ela “é uma distração”.

E ela não contesta isso. Ela não contesta nada do que ele diz (quando o assunto é ela mesma). O que Namorada diz é lei aos ouvidos de nossa heroína, que não manda o cara se catar em nenhum momento. [Em Londres, Diana conhece a secretária de Namorada e comenta que ela age como uma escrava. E a crítica àquele mundo se resume a isso.] Namorada, logo que eles se conhecem, fala para Diana: “eu sou o bonzinho; eles (os alemães) são os malvados”. Diana tampouco questiona porque só os alemães são tachados de malvados se tem um bando de gente (inclusive norte-americanos e ingleses, especialmente) lutando na guerra, matando gente, matando criancinhas inocentes, destruindo vilas, incendiando tudo – porque na guerra, gente, não tem esse maniqueísmo que o filme propõe.

Talvez alguns argumentem que Diana não precisa contestar verbalmente o que Namorada diz, já que ela mostra com ações e atitudes que ela está certa. Mas, aos meus olhos, isso enfraquece a personagem dela e fortalece a dele. Ela está fechada no mundo dela, mesmo quando está fora da ilha em que vivia com as Amazonas. Ela não questiona o que ela encontra fora dessa bolha, ela só quer matar o deus da guerra. O resto que se exploda.

Namorada, neste filme, não é como as namoradas dos filmes de super-herói. Em inglês existe um termo chamado “tropes” (tropos, em pt.), que basicamente descreve situações que são usadas como recurso narrativo, como um “atalho” para o desenvolvimento da história – seja em filmes, videogames, literatura – e que a audiência vai reconhecer. Existem muitos tropes ligados à figura da mulher, porque é comum elas só estarem na história de maneira figurativa, ou pior, para justificar ações masculinas. Assim, são tropes: a mulher/namorada que morre e serve de motivação para a vingança ou ação do personagem principal; a mulher violentada; a donzela em perigo; a mulher como recompensa pela ação masculina. Se você quiser se aprofundar, eu recomendo os vídeos da Anita Sarkeesian, do Feminist Frequency, sobre o assunto, que analisa esse fenômeno no mundo dos videogames, um ambiente notadamente machista.

Então, normalmente nos filmes de super-herói, a mulher é só um trope. No Homem-Aranha com o Andrew Garfield, a Gwen Stacy morre, o que o leva a se ausentar um pouco da vida de herói e questionar seus objetivos (no Homem-Aranha com o Tobey Maguire, afff, a Kirsten Dunst só grita e fica em perigo, além de dar um beijo no protagonista tomando a maior chuva e sem usar sutiã). Em Thor, bem, nesse filme a Natalie Portman faz nada também. Ah sim, e tem os casos em que a mulher só serve para reerguer o homem com quem ela está e reassegurar o quão incrível ele é, como novamente faz Kirsten Dunst em Elizabethtown. A mulher em si pouco contribui para o andamento da história como um todo. Ela mesma geralmente não tem história nenhuma.

Diferente dos exemplos que dei acima, a Namorada de Mulher Maravilha tem tratamento especial: tem uma história, conhecemos seu passado, sua intenção e missão. E mais, no fim, ele morre, o que ajuda a dar aquela motivação extra para Diana. Mas, vejam, ele não morre SÓ para justificar a ação da protagonista. Ele SALVA O MUNDO ao se matar e explodir um monte de bombas junto com ele. ELE SALVA O MUNDO. ELE PÁRA A GUERRA. Não ela. Ela luta com Ares, mas isso de fato não impacta a história da guerra que estávamos acompanhando (pq vejam, essa guerra acaba, mas logo tem outra, pq a morte do Deus é irrelevante uma vez que o mal está inerente no ser humano).

Entendem? Essa Namorada é tratada de maneira diferente porque, no fim, ainda é um homem. E é um homem que dá as cartadas no filme. Nossa protagonista não tem o chamado do herói – quem tem é ele, ela vai de penetra nessa história. Ele a guia durante todo o filme, ele bola os planos e estratégias (ela só sai correndo batendo e lutando), ele se sacrifica não por ela, mas pela humanidade. POR TODOS NÓS. É o nosso salvador.

 

Unbreakable Kimmy Schmidt wow seriously titus andromedon titus GIF

I need a Titus here.

 

E com isso nossa protagonista-empoderadora é esvaziada, relegada ao papel de mulher-tanque de guerra que não faz outra coisa a não ser lutar no frio europeu usando uma roupa muito curta e inadequada.

As mensagens, os papéis, os desempenhos de homem e mulher neste filme, ainda que dirigido por uma mulher (mas produzido por um bando de homem) permanecem os mesmos de sempre. A diferença é que essa história nos é mostrada com um verniz, em que socar e bater parecem o suficiente para fazer todo o resto como sempre se fez.

 

(Entre outros problemas do filme, eu vou dizer pra vcs que eu estou de SACO CHEIO de filme de herói com alemães como os vilões. Não estou questionando se está certo ou errado, eu só não aguento mais ver a mesma história contada milhões de vezes, primeiro pela Marvel, e agora pela DC, que “marvelizou” esse filme. E pq raios até os alemães falam inglês nesse filme???)

 

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