O fracasso do boicote

[Vamos falar sobre consumo e mudança.]

Desde que comecei a ler, estudar e entender um pouco mais sobre o processo de produção de roupas e saber quais marcas (nacionais ou não) lançavam mão do trabalho escravo ou análogo à escravidão, eu iniciei um boicote particular a elas. Eu nem entrava mais em lojas como Renner, Zara, M. Officer, Gregory e várias outras.

Hoje, depois de um bom tempo nisso, devo admitir que falhei miseravelmente. Não porque voltei a comprar em tais lugares, mas porque acredito que o impacto gerado pelo boicote foi zero. Não consegui nem convencer minha mãe a aderir.

Obviamente, a questão do consumo de roupas é bastante complexa. Diferente do que alguns podem pensar, as pessoas compram roupas na loja X ou na loja Y por diversos motivos. A compra do produto local/artesanal/autoral que custa o valor real da peça ainda é algo inacessível para a maioria das pessoas. Para muita gente, a roupa ainda é um gasto “supérfluo” ou que vem depois de coisas muito mais necessárias e básicas, como alimentação, educação e transporte. O bolso ainda tem um impacto gigantesco para a decisão de compra, vale lembrar.  Em outras situações, as pessoas compram em lojas de departamento ou lojas populares porque é lá que encontram exatamente o tipo de roupa que procuram, a roupa que lhes garante “estar na moda” e ser aceito socialmente dentro de um grupo estabelecido.

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Em 2013, o Rana Plaza, prédio localizado em Bangladesh e que abrigava diversas produções têxteis (sweatshops), desabou e matou mais de 1000 pessoas. Mesmo com os sinais de rachadura no prédio um dia antes do desabamento, os empregados das facções têxteis foram ordenados a voltar ao trabalho no dia seguinte.

Acreditar que comprar apenas de marcas locais ou de brechós é a solução para mudar a forma como as roupas são feitas e consumidas – como eu mesma já pensei por um tempo – é uma ilusão. Porque na prática não muda o sistema.

O boicote, por exemplo, pode funcionar se contar com a participação de grande número de consumidores, mas geralmente seu efeito é de curto prazo. Ele funciona enquanto é notícia, depois as coisas assumem os contornos de antes. Às vezes, e ainda pior, a marca decide diminuir a produção para compensar a queda nas vendas, o que acarreta demissões daqueles que já ganham muito pouco para sobreviver e manter suas famílias [vale ressaltar que já li muito texto e entrevista com pessoas que trabalham em regimes análogos à escravidão e eles dizem que o trabalho é melhor do que nada. Isso não quer dizer que eles adoram as condições em que trabalham, mas sim que vivem em um quadro de falta de oportunidades e miséria tão grande que é com aquilo que podem contar. Não confunda essa fala com uma defesa pela situação em que eles vivem. Porque tal situação é péssima, e tem que ser combatida].

Assim, não promovemos melhora ou modificação nas relações de trabalho em larga escala, não há garantia de direitos trabalhistas para os trabalhadores têxteis (aqui no Brasil ou fora dele). É a questão aqui é essa: como atuar de forma que haja mudança e melhoria em larga escala, para todo mundo?

valor
 Vou falar que é um processo árduo, difícil e paulatino. Li um livro recentemente muito bom (e sobre o qual acredito que vou falar muito ainda) chamado O valor de nada (ao lado). Na obra, o economista Raj Patel explica como funciona a nossa sociedade, a sociedade de mercado, e como podemos modificar esse quadro de exploração e consumo desenfreado. Em relação à exploração trabalhista, o único caminho é o da união e pressão exercida pela coletividade, especialmente em relação à atuação do governo. E quanto mais eu penso no assunto, não vejo outra forma também.

O que o autor quer dizer com isso é que as coisas só mudam quando as pessoas, enquanto grupo, unem-se e mobilizam-se por uma causa, ampliando as denúncias, e pressionando o governo para que leis sejam aprovadas, ferramentas de monitoramento sejam aplicadas e para que as sanções devidas sejam realizadas. Devemos fazer isso aqui, da mesma forma que a comunidade internacional deveria pressionar os governos dos país que notoriamente não atuam em prol do trabalhador. E há diversos exemplos na História que mostram a força e o impacto que a ação conjunta tem! Porque enquanto agirmos em frentes individuais, nossas vitórias também serão parcas e pontuais. Vamos juntos?

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