O peso do mundo

Eu não lembro quando começou, mas desde memórias remotas eu me achava gorda. Nunca fui. Mas nunca reconheci. Tinha um problema com a minha barriga, que eu achava enorme.

Quando eu era mais nova, escondia pacotes de bolacha na gaveta do meu criado-mudo, comendo-as em segredo em momentos de necessidade. Elas sempre estavam lá, criando essa relação de amor e ódio com o que eu comia. Ir à praia era um tormento inacreditável. Eu saía do mar com as mãos ao redor da cintura, como se estivesse poupando as pessoas da visão do próprio Lúcifer. Eram as minhas supostas banhas. Que nunca estiveram lá. Mas não conseguia enxergar isso.

Meu peso só passou dos 50kg durante a faculdade. Eu não tinha curvas, era mirrada e reta. Foi só depois de frequentar a academia (e passar daquela fase mágica dos 20 anos em que a comida parece que não é absorvida pelo organismo) que eu fiquei mais curvilínea. E não foi muito.

Sei que cheguei nos meus 55kg. Já trabalhando, e ainda com a ideia de que eu era enorme, fui pro ballet. Criancinhas de 7 anos davam rodopios ao meu redor que eu nunca daria, com a graça que me faltava. Mas eu emagreci e cheguei aos 52, 51 kg. Eu parecia doente. Os ossos dos meus quadris estavam saltados, não tinha nada para preencher meu sutiã. Eu me achava muito linda, mas minhas amigas começaram a conversar comigo, pedir pra eu maneirar.

Saí do ballet.

E depois disso, o peso só aumentou.

Desenvolvi intolerância a lactose e problemas no intestino… A barriga, sempre ela.

Alguns meses antes de casar, tive a maior crise da minha vida em relação aos meus problemas intestinais, tive que procurar uma nutricionista – passei dias inchada que nem um balão. Em paralelo ao tratamento que ela indicou, decidi que comeria menos, a fim de emagrecer pro casamento. 1200 calorias por dia. O resultado apareceu e eu perdi 5kg. Foi ótimo e foi uma merda ao mesmo tempo. Eu anotava todas as refeições pra controlar as calorias, jantava salada e muitas vezes ia dormir com fome. Talvez a culpa tenha sido minha por não saber escolher bem o que comer ainda, mas olha, foi difícil.

O resultado não se sustentou depois do casamento e eu encontrei todos os quilos que havia perdido. Encontrei em tudo que eu não pude comer antes do casamento. Também não foi muito bom, passei bastante mal, maltratei meu corpo. Esses desajustes todos são um pouco isso, uma grande forma de maltratar a si mesmo.

 

Eu, na formatura da faculdade de História, em 2007, e hoje. A cara tá mais de bolachinha, mas o cômico é que lá em 2007 eu me achava gigante (e nem perna eu tinha…!)

Hoje eu estou com 62kg. Nunca estive com “tanto peso” na vida. E é engraçado porque eu olho no espelho e não me acho horrorosa. A barriguinha protuberante definitivamente está lá agora, mas eu já não me atrito tanto com ela. Eu olho para mim e penso: como eu não estou me achando horrorosa? Não devia me ver como essa coisa medonha que não cabe nas roupas? É uma sensação muito estranha. Não sei se é aceitação. Acho que não completamente. Talvez seja cansaço. Cansaço de carregar tanta coisa comigo e me odiar, sabe? De só ver defeito. De achar que tem que controlar a comida toda hora, de pensar que o valor está no corpo e não no resto.

Tem uma hora que a gente cansa.

Tem uma hora que a gente tem que repousar o peso do mundo no chão e seguir.

Tem uma hora que a gente quer mais pra si.

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