Por que achamos que consumir é ruim?

Com um espaço que fala sobre consumo consciente (e uma vivência mais consciente, de várias formas), é natural que eu assuma uma postura um tanto negativa sobre o ato de consumir. O que entendemos hoje como consumo consciente tem muito a ver com consumir menos, melhor, com mais ponderação, usufruindo as coisas de melhor maneira.

Mas se formos parar pra pensar, os humanos sempre consumiram – de tudo, desde que surgimos. O consumo em si não vai parar, precisamos dele pra nossa sobrevivência. Mas hoje, quando falamos em “consumo”, nos referimos a um alvo bastante específico, muitas vezes taxado de supérfluo, pois se refere a bens e objetos que não são “de primeira necessidade”.

Até fazemos a distinção na fala – como fiz acima, o que é “de primeira necessidade” é válido e legítimo, amplamente aceito e indiscutível; o mesmo não se dá com os objetos “desnecessários” que também adquirimos. E o que compramos não por obrigação, mas por desejo, por vontade, é questionado. Na verdade não, é automaticamente julgado e punido. É visto como algo errado.

Já reparou que muitas vezes nós tentamos justificar a compra de um objeto desses pra nós mesmos e pros outros? “Não precisava da blusa, mas estava tão baratinha, tinha que aproveitar a promoção”, “Vai que aparece uma festa, já vou ter roupa pra usar”, “Essa bolsa é cara, mas é um investimento!” (não é, falei disso aqui). Não vejo ninguém justificando compra de papel higiênico em casa, por exemplo. Mas pra comprar um casaco novo, o sapato que tava namorando há semanas naquela vitrine, bem, haja ladainha. Também sei de gente que até esconde a compra do parceiro (ou parceira) ou mantém a fatura do cartão de crédito de refém até que a situação melhore.

Arte de Junião

Mas ainda que consumir sem necessidade seja ruim (pro planeta, pras suas finanças etc. etc.), vale pensar desde quando esse pensamento começou a vigorar. Por que é associada essa imagem tão negativa – que, veja, nada tem a ver com o planeta em si, com o gasto excessivo das suas economias, é simplesmente uma visão geral – sobre a compra dos ditos supérfluos.

Li um texto[1] que dizia que, antes da Revolução Burguesa, a compra desses bens era completamente aceita, em razão de ser restrita à aristocracia. Era um sinal de distinção social, e era amplamente valorizado. Comprava quem tinha dinheiro, e quem tinha dinheiro também tinha poder e status social. A aristocracia dominava esses quesitos. Com a mudança para a ordem burguesa, a situação muda, e outras pessoas (que não aristocratas e ricas de nascimento) poderiam também adquirir o que quisessem. O texto dá como exemplo uma análise da obra Madame Bovary, de Flaubert, que mostra uma moça de classe inferior que se casa com um homem de posses, e passa a gastar o dinheiro deste (com bastante bom gosto e requinte) como se ela própria “fosse rica”. A afronta do livro, em pelo menos um de seus aspectos, estava justamente nessa prática. A partir do momento em que a aquisição desses bens passou a ser prática social disseminada (ao menos entre os burgueses), ela passou a ser mal vista, criticada, recriminada. Recentemente também vimos esse processo aqui no Brasil, com a chamada ascensão da classe C (e o desespero das classes A e B, de quem a então classe superior parecia se aproximar).

Não acho que apenas isso explique essa postura que assumimos com nossas compras e gastos, mas é um indicativo de que estes atos não se encerram em si – eles dialogam com o mundo e nos colocam em um lugar específico, nos fazem assumir uma posição. E acho importante estarmos cientes disso. Esse texto não busca dar respostas exatas ou definitivas. Ele é um ponto de partida, para novas reflexões, novos questionamentos e diálogos. É pra pararmos e pensarmos sobre os nossos hábitos, refletir sobre eles – para entendê-los melhor e entendermos a nós mesmos também.

  •  Este post faz parte da série sobre consumo do Vivendo à vista!

 

[1] GOMES, Laura Graziela. Madame Bovary ou o consumo moderno como drama social. In: BARBOSA, Lívia; CAMPBELL, Colin (Orgs.). Cultura, consumo e identidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

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