Pra realmente saborear a vida

Um tempo atrás eu li uma entrevista na Folha de S.Paulo com duas cozinheiras italianas. No meio da entrevista, o repórter pedia que elas passassem uma receita simples, “que não desse muito trabalho”. Achei a resposta delas maravilhosa. Basicamente, elas não passaram receita nenhuma, porque cozinhar, cozinhar de verdade, exigia esforço, exigia trabalho, envolvimento. Não tinha essa de “não ter trabalho”.

Eu não consegui achar a matéria pra reler, mas a lição ficou na minha cabeça. Eu sinto que estamos acreditando muito em uma ideia equivocada de que é fácil atingirmos nossos objetivos desde que acreditemos neles piamente. Basta acreditar que você terá. “Tudo que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar”, sabe como?

A ideia é bastante tentadora. Ser um fiel de si mesmo, um crente – não das próprias possibilidades, mas das próprias vontades. Estaremos escravizados pelo que queremos, a ponto de achar que nosso querer justifica tudo, sem empenho nenhum de nossa parte?

Eu corro. Fiquei um tempo afastada da corrida, dedicada à musculação, que eu vi que gosto muito – sei lá porque acho divertido. Quando voltei a correr, foi um suplício. Eu não conseguia nem respirar. Levei quase 50 minutos pra fazer 6 km. E em cada um desses km meu corpo mandava mensagens muito claras de que eu ia morrer, de que eu devia parar e de que aquele treino tinha sido a pior ideia do mundo.

Daí corri pela segunda vez. Achei que ia ser melhor. Não foi.

Mas no terceiro treino já não sofri tanto. É um processo em que você passa a acreditar que consegue e que seu corpo não vai desmembrar. E você tenta de novo. E sua resistência aumenta, você se desafia. Seu tempo melhora. Você melhora. Você consegue. Você gosta.

E ao final da corrida, se você tem sorte, tem SORVETE!!!!

Há uma série de fatores que ajudam esse progresso a acontecer. Mas o mais importante de todos é calçar os tênis toda vez, mesmo sem vontade, e enfrentar aqueles km. E a corrida me mostrou (vem me mostrando, na verdade) que é assim com tudo da vida. Sem esforço, não tem reza, não tem crença, não tem leitura de “O Segredo” que dê jeito nas coisas que você quer melhorar. O trabalho é todo seu. Isso pode parecer um fardo para alguns, mas eu realmente acho libertador, pois está nas suas mãos.

Acreditar em si não é errado. É essencial, na verdade. Mas esse sentimento precisa estar fundamentado em ações, que justificam toda a fé que se tem em si mesmo. 

As italianas, no fim, passaram uma “receita” naquela entrevista, que eu tento seguir desde então. É aquela receita que nos diz que não há nada fácil na vida.

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem... Frase de Guimarães Rosa.

Mas é assim que os melhores pratos são feitos. E saboreados.

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