Precisei comprar shampoo

Ué. Não precisamos todos?

Sim. Mas o lance não está no shampoo, jovem padawan, e sim no termo “precisar”.

 

Eu cresci fazendo rancho com a minha família. Rancho, pra quem não sabe (pra quem não é gaúcho), é um termo para “compras do mês”, aquele mega comprão que enche o carrinho do mercado e é basicamente um estoque para caso ocorra a Terceira Guerra Mundial.

Meu pai age assim até hoje. Adora uma promoção, um rancho, um desconto. Ele é daqueles que compra três dúzias de ovos por que o preço está em conta, mesmo que ele só precisasse de 12. Ele já comprou meio quilo de fermento para usar apenas 100g (e jogou fora o resto, mas ainda assim “valeu a pena”, por que o valor de 500g era muito menor do que o do pacotinho de 100g).

Sabe como?

Eu sempre acho que foi a mistura de infância difícil com os tempos macabros do Sarney e aquela inflação galopante que o levou a ser assim. O dinheiro não pode ser desperdiçado (ainda que as coisas que compramos com ele possam), tem que ser aproveitado ao máximo. Comprar mais por um valor menor sempre pareceu a melhor estratégia.

Eu também assumi isso na minha vida muitas e muitas vezes. Eu comprava diversas coisas que não precisava por que “o preço tava muito bom”, ou por que “eventualmente eu uso, não vai se perder”. E quer saber? Às vezes a coisa se perde sim.

O lance de comprar dessa maneira é que, no fim, a gente sempre perde. E ainda cria um problema que não tinha. Vejamos o exemplo dos ovos. 36 ovos. Tem que fazer um esforcinho pra usar essa quantidade – e pra justificar a compra você inventa omelete, pão, faz bife à milanesa, usa para comemorar o ingresso de algum primo da família na faculdade. Tudo na sua vida tem ovo. E você gasta outros itens da sua geladeira (que você não planejava) para acompanhar o ovo (deusmelivre estragar e você perder umas unidades, tem que aproveitar tudo). É um gasto que demanda outros. E você ainda tem um monte de comida na sua frente para lidar. É uma preocupação que você não precisava ter. Entendem o problema aqui?

Como falei, também fui assim. Só que o meu lance era maquiagem, roupa e produto para cabelo. Às vezes para aproveitar o desconto da loja ou pegar o frete grátis, eu fazia um rancho capilar, com shampoo, condicionador e máscara, sempre pensando que “tudo bem, por que sei que vou usar tudo”. Mas eu fiz isso muitas vezes. Ao ponto de hoje ainda ter um pote de creme de cabelo que comprei há, pelo menos, 1 ano e meio (e eu acho que faz mais tempo) e ele ainda estar lacrado. Nunca usei, não deu. Era tanto produto (eu parecia a filial dessas lojas de cosmético que tem no centro da cidade) que eu não dava conta.

Olha que cenário deprimente.

Para fugir disso, eu sugiro que, antes de comprar algo, você pense: Eu preciso gastar esse dinheiro agora, neste momento? Ou essa compra pode ficar para depois? Esse dinheiro não vale mais na minha conta (para um gasto mais essencial) ou em algum investimento onde ele pode fazer amigos e se multiplicar? = D

Pra mim, essas perguntas tornam a compra menos impulsiva e mais racional, o que ajuda a tomar a decisão (de não comprar). E também evita um outro problema péssimo: a culpa da compra desnecessária. ;D

Comprar nos traz diversas consequências. Você precisa de um local para guardar o que comprou (e a questão do espaço é uma das que eu mais vejo as pessoas menosprezando na vida); precisa planejar seu uso, cuidar dele, caso seja algo que precise de manutenção, e por aí vai. E nós temos essa ideia equivocada de que o dinheiro é melhor empregado quando compramos muitos itens com ele, mesmo que não consigamos consumir todos eles. Não é melhor usar o dinheiro quando você realmente precisa, comprando a quantidade que você necessita, sem desperdício, e no momento em que aquilo lhe faz falta?

Pois foi o que aconteceu comigo.

Depois de quase dois anos, eu consegui uma vitória na minha caminhada de consumidora em reabilitação.

Precisei comprar shampoo.

 

 

[dica: para quem busca um shampoo low poo, recomendo fortemente o “Meus cachos, minha vida”, da Lola Cosmetics, que aparece na foto lá em cima. Sai uns R$30 a embalagem de 500g e é sensacional. Tem a versão para pessoas com cabelos não cacheados também.]

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Comentários (2)

  • Monique Mika 3 meses ago Responder

    Acho de uma relevância enorme esse post! Os problemas que o nosso consumo desenfreado provoca precisa ser tão relevante quanto a nossa vontade de compensar alguma insegurança nossa (medo, apego etc.). Um gasto que demanda outros, precisar arranjar espaço para o que compramos, e incluo a quantidade de lixo que produzimos, são questão que deveriam ser racionalizadas por todos ao estarmos diante de uma tentação. Estou nessa contigo!

    Natália Bellos 2 meses ago Responder

    Obrigada, Monet! = *

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