Quanto [realmente] deveria custar um sanduíche do Mc?

Não sei se todo mundo já pensou sobre isso, mas é cada vez mais comum suspeitarmos dos preços extremamente baixos de alguns produtos, sejam roupas, eletrônicos ou comida, por exemplo. Muitos desses itens são produzidos com mão de obra escrava ou análoga à escravidão, uma vez que os trabalhadores laboram por muitas horas em péssimas condições para ganhar uma ninharia de salário – isso quando são pagos. Essa situação acontece em países como China, Índia, Bangladesh, Vietnã… e Brasil.

Mas isso eu acredito que você já saiba.

E só isso talvez não ajude a justificar os preços irrisórios que pagamos por alguns itens. O que mais não estamos vendo?

Raj Patel, autor do livro O valor de nada, descreve os custos ocultos dos produtos que consumimos. A esses custos ele chama (assim como a economia moderna, ehehe) de “externalidades”.

Ele usa como exemplo um sanduíche do McDonald’s e lista a emissão de carbono, a utilização da água, a degradação do solo, além de custos ocultos de saúde (relacionados às doenças causadas pelo consumo dos sanduíches) como custos que deveriam incidir sobre este produto, além dos que já imaginamos, como a criação dos animais e a aquisição da carne e de outros ingredientes, os funcionários das lanchonetes etc.

Quer pagar quanto?

Essas externalidades, ainda que se refiram ao sanduíche do Mc, não são repassadas diretamente ao consumidor que compra esse “alimento”. Mas o custo existe:

Embora esses custos não se reflitam nos preços do Big Mac nas lanchonetes, eles têm que ser pagos por alguém. Acontece que eles não são pagos pela McDonald’s Corporation, mas por toda a sociedade, na forma de desastres ambientais, migrações causadas por mudanças climáticas e gastos cada vez maiores com saúde. De acordo com um relatório do Centro de Ciências e Meio Ambiente da Índia, um hambúrguer fabricado com carne de rebanho criado em florestas desmatadas deveria, de fato, custar cerca de 200 dólares.

PATEL, Raj. O valor de nada: por que tudo custa mais caro do que pensamos. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p. 48 (grifo nosso).

Mas quem vai pagar U$200 por um sanduíche? Eu me admiro que as pessoas paguem R$25…

Os produtos são muito baratos, assim, não só porque existem os “salários de fome” pago aos funcionários e trabalhadores que ajudam a fabricar e comercializar esses produtos, mas também porque todo o estrago ambiental gerado para a produção desses itens fica de fora da conta repassada ao consumidor – porque os próprios fabricantes não estão pagando por isso.

O que os custos ocultos demonstram é que não se trata de comida barata: e sim, de comida desonesta.  O que vale para a comida não vale menos para outros itens de consumo. Bens e serviços produzidos de forma sustentável parecem custar mais porque seus equivalentes mais baratos estão cortando caminho, no curto prazo, mas gerando custos de longo prazo que todos nós teremos de bancar.

PATEL, Raj. O valor de nada: por que tudo custa mais caro do que pensamos. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p. 52.

Acredito que esse esclarecimento é essencial. Quantas vezes você deixou de comprar comida orgânica porque era “muito cara”, assim como roupas artesanais e feitas de produtores locais que não têm como cobrar o preço de uma C&A ou de uma Renner? É preciso entendermos que as coisas muito baratas é que deveriam nos assustar – porque, de fato, produzir roupas, comida, eletrônicos ou o que for, tem um custo e, consequentemente, um preço muito maior do que a maioria das etiquetas nos mostra por aí. Abrir o bolso um pouco mais pode doer no início (e eu sei que não é possível para todos), mas é importante nos informarmos sobre a origem do que adquirimos e a forma como o produto foi feito, justamente para entendermos e enxergarmos os custos que nós mesmos ajudamos a fazer.

[Isso não quer dizer que pagar mais caro por algo é sinônimo de que todos os custos de produção estão efetivamente embutidos no produto; mas, avaliando o preço junto com outros fatores – como condições de produção, mão de obra e matéria-prima utilizada etc. –, é possível identificarmos um panorama mais justo e condizente com a realidade.]

  • Este post faz parte da série sobre consumo do Vivendo à vista!
0

Clique no botão abaixo para seguir o Vivendo à Vista! e receber notificações via RSS
rss

Você pode gostar também

Comentários (2)

  • Cristiano 2 meses ago Responder

    Eu tenho uma visão diferente… Os preços em um mercado de trocas têm basicamente a ver com escassês e produtividade. Escassês: Os recursos, como a carne, a água, entre outros, ainda que limitados, hoje são abundantes e de fácil extração e consumo. Em uma situação em que de fato sejam escassos – ou seja, tornem-se de difícil extração – automaticamente se tornam mais caros. O outro ponto é a produtividade: com o avanço científico vai sendo cada vez mais fácil produzir “mais com menos” – lembrando: o menos aqui obedece ao critério de escassês citado anteriormente. Assim os lanches, carros, casas, combustível, roupas vão se tornando cada vez mais baratos. Com preços mais baratos tornam-se mais acessíveis às pessoas mais pobres. É assim que a qualidade e expectativa de vida aumentaram exponenciamente nos últimos 200 anos ao passo que a mortalidade infantil despencou: fazemos mais, com menos, para mais pessoas por preços menores. A evolução tecnológica tem sido o grande remédio e ferramenta para nos prover uma vida cada vez mais abundante 🙂

  • Cristiano 2 meses ago Responder

    Acredito que este artigo ajude a compreender melhor o que quis dizer: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2664

Deixe uma resposta