Sem penico

[post extra da semana!]

Esses dias o almoço em família se transformou em uma bela e difícil conversa sobre Dia da Mulher, “essa coisa de feminismo” e assuntos relacionados. Minha mãe alegava não entender o que o feminismo era ou porque existia o Dia da mulher. Para ela, as mulheres estavam “pedindo penico” com esse tipo de coisa. Na visão da minha mãe, se a mulher quer alguma coisa, ela que vá lá e faça, sozinha e por conta. Não precisa “mobilizar todo mundo”.

[É aquela velha ideia de que você pode fazer sua revolução, desde que não atrapalhe ninguém e mantenha tudo como está. Ou seja…]

Essa onda feminista que vivemos não é penico, é por direitos. Não é por favores ou migalhas, não é “mimimi”. Os números e estatísticas relativos à violência contra a mulher, ao feminicídio no Brasil e a ausência de mulheres em postos de liderança não me deixa mentir [sobre o último tópico, indico o livro da Sheryl Sandberg, “Faça acontecer”].

Um tempo atrás, eu e meu pai conversávamos no carro, pouco antes de ele me deixar em casa. Falávamos sobre relacionamentos, até que ele comentou:

– Natália, nunca achei que você iria ficar com o Fulano [não estávamos falando sobre o Gui, só pra deixar claro, era sobre outro rapaz]. Porque você é uma pessoa que não tem perfil de liderança, você não sabe decidir, não sabe escolher nada, é super indecisa… E você precisa de um homem que te diga o que fazer, que te pegue pela mão e te diga aonde ir, que te oriente. E esse cara não era essa pessoa.

[side note: Gui nem de longe é esse tipo de homem. Não à toa, casei com ele.]

Esse tipo de discurso – ou essa falta de estímulo e confiança – eu e várias outras mulheres ouvimos por muito tempo em nossas vidas.

Quantos homens ainda nos questionam no ambiente de trabalho e minimizam o que dizemos? Quantas vezes valorizamos as mulheres apenas pelo visual delas e não pelas conquistas que obtiveram? Quantas empresas ainda pagam um salário menor às mulheres (comparado com seus funcionários) quando muitas vezes elas são a força de trabalho mais qualificada no mercado? Quantas vezes nossas mães se preocuparam em nos educar para cuidar do lar e sermos boas donas de casa, focadas no asseio do lar e na felicidade conjugal, ao invés de nos explicar que o ponto alto da vida de uma mulher não precisa estar no casamento? Quantas vezes nos estimularam a buscar outras realizações? Quantas vezes simplesmente nos foi dito não?

Eu poderia citar inúmeras situações e diversos exemplos aqui que nos mostram como o machismo ainda impera em nossa sociedade patriarcal, retrógrada e conservadora. Felizmente hoje eu vejo também uma sociedade que muda. Veja mulheres unidas, organizadas, que mostram umas para outras que podemos mais, que merecemos respeito, que somos capazes, que não precisamos ser lindas, precisamos é ser ouvidas.

O Dia da Mulher e o feminismo estão aí pra dar suporte, apoio e visibilidade à situação da mulher e fazer tod@s repensarem sua posição diante do tema. Estas ferramentas não estão aí pra mulher pedir “penico”. Porque quando a mulher é sobrecarregada com o trabalho e o cuidado com os filhos, quando o parceiro é ausente e acha que não é responsabilidade dele fazer as tarefas da casa, por exemplo; quando um homem bate em uma mulher e nós questionamos o que ela fez pra provocar isso; quando acolhemos e valorizamos homens agressores; quando andamos na rua com medo de assédio; quando criticam nosso corpo e nos vetam autonomia sobre ele… parece que penico foi só o que recebemos até hoje, não?

É possível celebrar o dia de hoje por tudo que ele representa – olhar pra trás para enxergar o quanto caminhamos, olhar pra frente pra entender que a estrada é muito longa. Celebre hoje, lute todos os dias. Como sempre.

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