Sobre revisionismos pessoais

Quando a gente estuda História, é sempre um tanto injusto: estudamos eventos e fatos, muitas vezes, já sabendo o resultado deles. Com isso, é fácil julgarmos, é fácil criticarmos. “Nossa, mas ninguém viu que isso ia acontecer?”, “Ninguém fez nada pra impedir?” e por aí vai.

O retrospecto, ou revisionismo, pode ser muito cruel.

O exercício fica ainda mais difícil quando falamos da nossa própria vida. Sabendo de certas coisas hoje, e usando-as para analisar o passado, o quanto isso é justo? O quanto isso é possível e nos ajuda a lançar luz nova sobre eventos que pareciam borrões sem explicação ou fatos dados como naturais?

No final do ano passado, depois de (sobre)viver (a)o pior ano da minha vida, eu fui diagnosticada como bipolar. (Minha psicóloga me orientou a não falar que eu “sou bipolar”, mas que eu “estou bipolar”, pois há momentos em que o transtorno se manifesta e outros em que não). Mas fato é que o transtorno tá aí na minha vida. E não é de hoje.

Sabendo disso, é doido como ocorre um misto muito grande de alívio e confusão. Alívio porque muita coisa que eu vivi passa a ser explicada pelo transtorno – minha depressão, minha redução de necessidade de sono, minha ansiedade, meus gastos descontrolados (a compulsão é outro sintoma da bipolaridade), minha exaustão, meu desespero, os pensamentos obsessivos, minha irritabilidade também excessiva.

E confusão porque eu olho pra trás e começo a rever a vida com esse novo par de lentes. Minha identidade entra em xeque e eu, até agora, mesmo seis meses depois de diagnosticada, ainda me pego questionando até que ponto algumas das coisas que faço são “eu” ou são “o transtorno”, como se fossem entidades separadas e não uma coisa só que sempre me constituiu. “Será que quando eu jogava minha mochila da escola contra o ponto de ônibus, aos 11 anos, por pura frustração por ter me atrasado, era só meu temperamento ou era uma manifestação da minha hipomania?”. Sinceramente, não sei dizer.

Ainda tem muita coisa que não sei dizer, não sei explicar, não entendo. Vivo com a bipolaridade há muito tempo – meus episódios mistos, que unem a depressão com a hipomania, já se manifestaram de maneira mais grave pela primeira vez há nove anos –, mas ela ainda é uma companheira relativamente nova. Como Rebecca Solnit diz, dar nome às coisas muda tudo mesmo.

Com os remédios e a terapia comportamental muita coisa melhora, muita coisa se altera, mas não quer dizer que é fácil. A mente funciona diferente, ela se acalma, mas o mundo parece em câmera lenta e você observa tudo de longe, de fora. Nos primeiros quatro meses eu não sabia nem se conseguiria voltar a trabalhar – eu não conseguia ler livros, eu tremia tanto que não conseguia escrever, mal tinha forças pra chorar.

Tratar a bipolaridade é perder muito do que você é, do que você entende por você. Mas é o que permite estabilidade, diminui o desgaste. É o que está me ensinando, pouco a pouco, que não é preciso tanta pressa, tanto desespero, porque diferente do que me parece, ainda há um amanhã do qual se desfrutar.

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