Um tapa na cara dela. E na minha

[Eu ia começar esse ano com um outro texto, mas achei esse mais importante e passou na frente].

Essa semana eu voltava de uma reunião e peguei um ônibus pra voltar pra casa. Eu ia descer logo, por isso fiquei na porta. Na minha frente, um casal de adolescentes.

O garoto estava fazendo uma brincadeira idiota com a menina que o acompanhava: ele segurava o braço dela e tentava fazê-la socar a própria cara. O_O

Quem faz isso?

A cena já me deixou bem incomodada, assim como também deixou a garota, que pediu para o menino parar.

O que ele faz em seguida?

Deu um tapa na cara dela.

Vou repetir: ele deu um tapa no rosto da menina. Dentro do ônibus. Com um monte de gente em volta.

Eu fiquei chocada e me senti tremer na mesma hora. Não sabia o que fazer, não sabia como reagir. Ao meu redor, como vc deve imaginar, o que aconteceu? Nada.

Vou repetir: o garoto deu um tapa na menina e ninguém, NINGUÉM AO REDOR FEZ PORCARIA NENHUMA.

A garota ficou chocada também, e bastante constrangida. O rapaz disse que era uma “brincadeira” e tentou roubar um beijo dela. Ela se recusou. Logicamente, o que ele fez? Agarrou o rosto dela e tentou beijá-la à força.

O_O

[Corta pra uns dias antes.]

Ouvi um podcast muito maravilhoso, o Mamilos, sobre divórcio. Sério, eu recomendo que todo mundo ouça, foi mto mto sensacional. No fim do programa, as meninas comentaram o caso de uma moça que se separou e estava agredindo a filha de 12 anos. A tia da menina não sabia o que fazer para ajudar. Uma das participantes do programa comentou que a tia podia levar a menina para terapia, mas que, em último caso, ela devia acionar o Conselho Tutelar. De qualquer forma, ela devia intervir sim.

E eu fiquei pensando nisso um tempo depois. A gente tem essa ideia de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, “eu sou o pai (ou a mãe) e sei o que é melhor pro meu filho, então não se mete”… e tantos outros exemplos que falam de uma privacidade extrema, inviolável sob qualquer aspecto; ideias que colocam as pessoas, mesmo aquelas em situação vulnerável, sob um tipo de autoridade mágica (e inexistente), que parece nos impedir de agir pelo outro. “Eles que são casados que se revolvam”, “eles que são crianças que se resolvam”, tudo mundo tem que se “resolver”, enquanto a gente olha pro outro lado e finge que não vê nada. É uma cegueira voluntária, é uma escolha por se abster.

É agir dentro daquela máxima, do Desmond Tutu:

Resultado de imagem para desmond tutu lado do opressor

[Volta pro ônibus]

Não sei porque as pessoas no ônibus não falaram nada. Se as pessoas veem um indivíduo ser espancado no metrô e não fazem nada, que dirá uma jovem “apenas” levando um tapa, não é mesmo?

Eu não tô aqui também pra ser a paladina da verdade e da moral, mas eu fiquei triste com o episódio todo. Triste de perceber que chegamos nisso. Que falta tanta empatia, tanta preocupação.

A cena aconteceu muito rápido. Cogitei socar o garoto, de raiva, mas não ia ajudar a dar um bom exemplo, pensei. Resolvi focar na menina. O ônibus chegou no tubo em que eu ia descer. A porta tava abrindo, eu só virei pra ela e disse: “Você não deve aceitar isso nem de brincadeira, viu”. O garoto ficou mais espantado do que ela. Ele ficou desarmado, por isso eu falei pra ele, mais alto agora: “E você, trata ela com respeito, tá ouvindo?”, ao que ele respondeu fazendo que sim com a cabeça.

Saí do ônibus. Eu tremia. Não sei o que aconteceu depois. Fiquei com a sensação de que fiz nada, de que ia mudar nada. Eu fiz pouco. Acho que no fim tá todo mundo fazendo pouco. Tá todo mundo dando aquele tapa.

1

Clique no botão abaixo para seguir o Vivendo à Vista! e receber notificações via RSS
rss

Você pode gostar também

Sem comentários

Deixe uma resposta