Uma rápida reflexão sobre [a importância das] referências

Quando eu li Roube como um artista, uma parte que me chamou a atenção falava sobre as pessoas que admirávamos ou que eram uma referência ou influência para nós. Eu fiquei um tempão pensando naquilo porque, até então, não conseguia responder a essa questão: quem eram as pessoas que me influenciavam ou que eram uma referência para mim?

Hoje tenho claro alguns desses importantes nomes para a minha formação como mulher e indivíduo.



Quando eu era mais nova, lembro de uma vez em que estava no carro com meu pai e ele comentava comigo o que esperava do meu futuro. Ele desejava que eu encontrasse um homem que pegasse minha mão e me direcionasse, alguém que tomasse as decisões por mim e me dissesse o que fazer, pois, na visão dele, eu não era capaz disso. Ele achava que eu não tinha liderança, pulso firme e que eu não demonstrava nenhuma certeza em relação às coisas. Um marido resolveria isso para mim. Mais, um marido que me diria o que fazer.

Acho dispensável ressaltar o quanto aquilo me partiu o coração, ainda que tenha vindo de um lugar de amor. Imagino que muitos de vocês cresceram com pais muito encorajadores, mas os meus estavam bastante preocupados com nossa formação educacional – ao qual sou muito grata -, deixando um pouco de lado aquele estímulo para nossa autoestima. Havia sempre hesitação, dúvida e uma incerteza no ar.

A responsabilidade por tal situação não é apenas deles, que fique claro. E eles não fizeram por mal. Eu também aceitei aquelas palavras por muito tempo. Eu também me vi muito incapaz. É aquela história, a gente aceita o que acha que merece.

Mas, se escrevo esse texto, é porque algo mudou. E foi assim que eu consegui responder à pergunta do livro que mencionei no começo do texto. Parei pra pensar e vi, que, aos poucos, eu tinha construído alguns referenciais que me ajudaram a mudar a forma como eu me via.

As duas primeiras referências são literárias. E eu não podia ignorar Jane Austen aqui.

Orgulho e Preconceito foi um livro que li várias vezes e sempre me surpreendeu. Não vejo como uma simples história de amor. A obra de Jane foi um dos primeiros contatos que tive com a ideia de que a mulher pode fazer o que quiser. Elizabeth Bennet era uma personagem que não aceitava as convenções que eram impostas a ela por ser mulher. Ela queria casar apenas se achasse alguém de quem gostasse – e não por obrigação. Pensando que isso foi escrito no século XIX, é um tremendo statement. Eu via Bennet e a achava maravilhosa. Ela não cedia aos apelos da mãe, da sociedade, de ninguém, apenas ao que queria. Porque ela sabia que podia e que merecia mais. Uma grande lição.

estante

Obras de Jane e Simone na prateleira de casa.

Não consigo expressar o quanto O Segundo Sexo, de Simone Maravilhosa de Beauvoir mudou minha perspectiva sobre ser mulher. Com certeza foi minha porta de entrada para drogas mais pesadas, ahahaha. Beauvoir exprime e evidencia o que todas nós (em graus e formas diferentes) vivenciamos por ser mulher: o descaso, a humilhação, o silêncio forçado, a dúvida, a associação com o impuro e o demoníaco, com o louco e o desvairado. Mulheres precisam ser contidas e controladas. A partir do momento em que conseguimos enxergar o sistema, conseguimos também modificá-lo e melhorá-lo. Devo muito ao trabalho desta mulher.

Finalmente, não consigo apontar um nome, mas um fenômeno que aos poucos tomou conta da minha vida: a força da amizade de outras mulheres. A amizade e a sororidade fornecem um vínculo que não se encontra em lugar nenhum. <3

 

Foi o contato com mulheres incríveis que, finalmente, ajudou a abrir a minha cabeça e a aceitar a pessoa que eu sou – com meu cabelo cacheado, minha barriguinha saliente e preferência por vinhos doces (saudades, Barracão!). Foi só na vivência com outras mulheres que eu entendi o que era ser mulher, o que era discutir assuntos tão diversos quanto sexo, trabalho, carreira, relacionamentos, dificuldades relativas ao ser feminino… Foi só convivendo com pessoas tão diferentes, com vivências distintas, que eu entendi a multiplicidade inerente à nossa existência, e foi pela fala, pelo sorriso, pelo abraço e pelo carinho delas que eu entendi que era ok ser eu mesma – tão forte e dona de mim como sempre imaginei. Foi com todas elas que eu também entendi que não precisava aceitar pouco e simplesmente concordar com o que me era imposto – há um mundo de possibilidades para criarmos, um mundo de preconceitos para desconstruirmos.

Obrigada, mulheres maravilhosas que fazem parte da minha vida. Vocês me ajudam a ser uma pessoa mais verdadeira, e por consequência, melhor.

 

E as suas referências, quais são? Você já parou pra pensar sobre elas?

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