Você não precisa jogar suas roupas fora

[Parece que a resposta para a vida, o universo e tudo mais mudou de 42 para 37.]

Eu não sei você, mas tenho visto algumas pessoas reclamarem que, ultimamente, existe uma pressão e uma obrigação para que você não consuma, viva com menos e praticamente jogue suas roupas fora. É quase uma proibição de curtir o que se tem. Li um texto na Elle em que a altura falava justamente sobre isso – para ela, as roupas tinham uma ligação emocional e afetiva, e ela não queria se desfazer de peças que tinham tanta memória, tanta história a suscitar.

Também já vi gente falando que tinha que comprar novas peças para montar um armário-cápsula e que era muito difícil viver com 37 peças no armário, como fez a Caroline, do blog Un-fancy, que virou referência no assunto.

Embora a ideia do armário-cápsula seja uma maravilha para ajudar quem precisa a usar melhor as roupas que tem, gastar menos e redefinir seu estilo, é válido lembrar que ele não é obrigatório. Seja o armário-cápsula, seja o minimalismo, seja uma filosofia de vida mais consciente… eles não são obrigações, não são imposições, e também não devem se transformar em amarras, em fardos que levam você a se chibatar cada vez que compra uma blusa nova, por mais esporádico que isso aconteça.

Dia desses eu comprei uma saia e uma blusa que queria muito – encontrei as peças (exatamente do jeito que queria) apenas em loja de departamento. E depois disso, foi um martírio. Eu me sentia culpada por ter comprado na tal loja (pois muitos dos produtos deles são de origem chinesa) e fiquei dias me sentindo mal. Não conseguia usar as roupas. Vou ser bem honesta aqui e dizer que a eficácia de se recusar a comprar em certas lojas ainda é uma questão com a qual eu me debato muito (falarei sobre isso em outro momento), mas na hora deu arrependimento, a sensação era a de ter cometido um crime. Conversando com o Gui, ele me fez ver que, já que tinha comprado, o mínimo que eu devia fazer era usar as peças o máximo possível, garantindo sentido ao dinheiro gasto e à produção que originou aquelas peças.

saia

Eu e a saia da discórdia.

Daí eu lembrei de um vídeo que assisti, do canal Thriving Minimalist. No vídeo, Conor McMillen fala que ele não liga para o minimalismo – ele se importa com felicidade. Para ele, minimalismo serve como uma ferramenta para que se alcance um objetivo, ele não é o objetivo em si. Comprar menos, adquirir itens de produtores locais, entupir menos nosso armário: estes devem ser atos que têm como objetivo final uma vida mais leve, em que se aproveite mais o que se tem, em que se deprede e degrade menos, em que o dinheiro não passe só para as mãos das grandes corporações, mas que circule entre as pessoas e nos permita uma reaproximação com a origem do que consumimos.

Não se preocupe com números, não pense na “modinha”. Não perca as belezas e os aprendizados que o processo te dá por causa dos números, dos “pode e não pode” que os métodos parecem impor. As mulheres que assumem seus cabelos cacheados ou crespos naturais, em sua maioria, não o fazem por “modinha”. Este processo envolve afirmação de identidade, reconhecimento, visibilidade, fomento do amor-próprio e até mesmo contestação política. Elas o fazem por elas em primeiro lugar. Tais mudanças são muito mais profundas do que imaginamos e afetam diretamente nosso emocional, nossa imagem para nós e para os outros; elas falam de nosso lugar no mundo.

Faça o que você quer fazer (enxugar armário, consumir menos, adotar a vida minimalista, enfim) se isso tiver sentido para você, se você puder adaptar à maneira como vive e se sentir que essas atitudes não se encerram nelas mesmas, mas te ajudam a atingir seu objetivo final, maior e, de preferência, mais feliz.

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